16.1.12

As crianças



Os Mundos giram em dias iguais,
Na penumbra das horas dos seres mortais.

Aninho-me, juntando os joelhos à terra,
fazendo um remoinho com um pauzinho de madeira,



As crianças como eu, brincam na margem do rio, com paus atados com atilhinhos cheios de minhocas, a fazerem de conta que conseguem pescar. Outros rebolam na areia com a cara iluminada de um sorriso com todas as cores da alegria. O Sol brilha nos seus cabelos e as roupas furam quando saltam de pedra em pedra, as sapatilhas molhadas e lamacentas, mas a pequena alma cheia de raios, sonhos, cores, cheiros, chupa-chupas e pastilhas, cheia de pensamentos na mamã, no maninho, no papá...

Mas...
Alguns meninos não são assim, estão tristes, foram devolvidos das suas famílias de adopção, foram iludidos com o sonho de uma casa, de uma família e voltaram a po-los no escuro da desilusão, na falta de confiança, na culpa...
Aqui dou um sorriso a estes meninos, fecho os olho e lembro-me de mim criança....
Abro um sorriso e convido-os para brincar.
-Partilho as minhas gomas contigo, se me ensinares a pescar, digo.
- Ensino-te mais coisas do que a pescar, nós crianças ensinamos a amar, respondem.

Há dias em que a tristeza invade,
Mesmo até o corpo em que habita mais felicidade.

10.1.12

Piano pesado

Sentou-se em frente às letras e só mexeu dois dedos, por vezes bater aquelas teclas era um piano muito pesado de tocar. Fecha os olhos,tentando por a mente a preto quando se lembra de repente da sua covardia em enfrentar o teclado, sentia que a sua vida tinha sido revolvida como a terra dos campos e que os bichos tinham comido todas as flores da Primavera e todos os pássaros tinham perdido as asas.
Precisava de chorar mas não podia, porque não é o esperado dela, não é o esperado...
Passa os dedos no cabelo e acende um cigarro, na vã esperânça que algo lhe venha à cabeça ou que esse algo faça mover os seus dedos...
A perda - escreve ela - não escreveu mais.
Escrever é um atestado de verdade e realidade muito pesado, muitas vezes, para suportar.
Assim como a sua vida também, muita pesada por vezes para suportar.
Não consigo - pensa ela - pousando os dedos trémulos nos joelhos e àgua nos olhos, sentindo molhar-lhe a cara, as lágrimas a entrarem para a sua boca.
O Ser Humano é o ser mais magoado, pensa ela...
Pois eu continuo esssa frase:
O Ser Humano é o mais magoado, porque cria laços, porque ama, porque se supera, porque não vive uma vida sem recalcamento, sem angústia, sem sofrimento. O Ser Humano perde quem ama e ganha outros, revoluciona terras inteiras e esconde-se em armários também, nasce e cresce e morre...
Morre...Morre...Morre...
Como tu morreste...



6.12.11

Os Walking Deads

Eles rodam nas estradas, deambulando em paradas e cativando as expressões do dia. Tomam cafés e mocciatos, vestem fatos e batas e passam  apressados entre nós. Vestem calças e saínhas com meias e collants, cabelos arranjados e carinhas maquilhadas, circulam em carros e taxis, autocarros passam, nevoeiro levanta-se, a vida corre entre eles.
Fluem,e me encontro com eles na rua, andando em passos apressados, com olheiras dantescas e cabelos grisalhos. Rugas de cansaço, olhos opacos em cima de saltos altos, olhares fugazes de ajuda na quebra da vida que os sufoca. Têm nas mãos réstias de sonhos que tinham de quando dormiam em quartos rosas e azuis e pensavam que um dia seriam tudo o que quisessem.
O mais forte é o mais apto, o mais fraco o primeiro a desistir. Agarram as chaves de casa com inércia, tendo sacos de compras na outra, passeando na vida vaga, tão vaga quanto eles. Carregam fardos de ilusões vazias e olham para trás mais vezes que olham para a frente.
Deitam-se nas camas frias e sonham com um pouco de calor para o seu dia. Vazios, senis, escuros.
Tentam comer aqueles que vivem no sonho, que ainda podem ser alguém, vivem para molestar o sonho, querem sugar as energias dos possantes, dos que querem viver, dos que não se limitam, dos que não limitam os outros.
Estes são os verdadeiros zombies, os walking deads da nossa vida, aqueles que nos querem comer, que nos querem tornar como eles, aqueles de quem temos que correr, que nos resguardar e nem podemos deixar que nos arranhem, que nem arranhem a nossa vida.
O tiro tem de ser certeiro, o nosso tiro da compaixão, o tiro que nos guarda de sermos assim um dia, o tiro da defesa.

Continuem a disparar!

2.12.11

LÓreal

Converter as músicas em sonhos e sonhos em emoções, ensinaste-me a ouvir com mais alguma coisa que os ouvidos. Vês o mundo num arco-iris tão esquisito, pintado de tantas cores, cores que nem existem para mim, mas que tu as apontaste e mostraste que afinal, afinal, afinal, afinal, elas estavam lá.
Às vezes acho-te tão triste, a rir de olhinhos tristes e queria tanto tanto tanto que nada de mal te aconteça, que esse coraçãozinho não doa, esse coraçãozinho tão lindo.
Adoro as nossas recordações, essas que falo sempre, emproada de uma mágoa orgulhosa mas que não te guardo mágoa nenhuma! Queria estar contigo mais vezes do que estou, os amigos deveriam estar juntos e tu és meu Amigo! Sinto a tua falta! 
Traz o livro das memórias e vamos enche-lo de novas e divertidas, de música e imagens. 
Não falo muito de pessoas aqui, pessoas em particular. Falo de uma ou outra, das importantes...Bateu me na cabeça que nunca te escrevi nada e tu...tu mereces tanto!

15.11.11

Os Adormecidos

Naquela noite tudo corria mal, todas as portas se fechavam, fechavam-se com a força da palavra não. Noites passaram e nada mudou, portas continuavam fechadas e a escuridão da noite era cada vez mais escura. A flacidez apoderara-se da alma e a alma do corpo e o corpo dos outros corpos. O Futuro era uma quimera sem rosto ambicionada por todos, mas nem a todos esta dá a sua mão.
A Palavra era fluída mas já não entrava na mente dos homens, a Fé não se pode comer. As cabeças andavam para trás e para baixo como boas servas e a cultura definhava a cada dia.
Mais noites passavam, passavam sem perspectiva de dia, porque este é curto e incerto e nem sempre tem coragem para abrir as portas aos seus mal amados filhos.
A prostração tem a grande virtude de ensinar o caminho, já que passamos tanto tempo de olhos no chão e aí enfim, começaram a encontrar o dia dentro da noite, mentes tornaram-se escuras mas verdadeiras e nos seus corações a mudança germinou. A angustia deu lugar à fúria e à revolta e as cabeças baixas ergueram-se em tom de acordar. 
Os olhos abriram-se e a boca não proferiu mais a palavra desculpa, os punhos cerraram-se, os monstros caem aos pés de quem não é ninguém, um gigantesco ninguém sem cara e sem nome que os obrigou a vergar sob o jugo do limite. De repente a alvorada veio e todos poderiam ver o sol outra vez,  marchando incessantemente contra a contaminação das almas e a vitória do dinheiro sobre as vidas.

Aqui ficamos nós Lusitanos, ainda na esperança escura de tal quimera, quando outros já vêem o dia, cá ficamos a definhar enquanto o mundo não para o seu avanço, aqui ficamos com a mísera alegria de viver um dia após outro, na penumbra do descalabro, em casas com paredes de medo em que a àgua não lava a nossa vergonha.
Não iremos ver o dia tão cedo, esse raiar de madrugada que alimenta o Homem.

11.11.11

Abre esses olhos

O caminho de cada um é somente dele. A ideia de cada um é somente sua. As atitudes serão respeitadas assim como as vontades. O melhor tem de ser feito. O sacrifício tem de ser posto em prática e a clareza de pensamento tem de prevalecer. As acções têm consequências, e elas cá estão para nos recordar que nada é romanticamente impune ou sublime!
Cada passo dado em falso pode ter consequências desastrosas, pensa em ti, na tua vida e no teu Futuro.

19.10.11

Gotas da manhã

Desce sobre mim a névoa do tempo, passa dentro de mim e do meu corpo como uma brisa em forma de àgua que me persegue quando olho sobre o meu ombro. Envolve as minhas narinas e a minha boca, sinto gotas de nevoeiro nos lábios e résteas de pó na ponta dos dedos. Sinto os grãos da Terra debaixo dos meus pés, duros e fortes, sinto o cheiro a terra molhada e do verde da manhã que me ofusca a visão e pinta tudo tão luminosamente
Ergo a terra e esfrego-a na cara, sinto o mundo nas minhas mãos e no resto do meu corpo, sinto o fogo a sair das minhas palmas como de vulcões se tratasse e que o ar que me rodeia só faz acender mais e mais. Vou voar, levantar com as gotas da manhã, que deixam qualquer problema para depois, que nos diz que não há tempo para não aproveitar o seu orvalho, que dá um sorriso e um suspiro a quem presencie.
A verdade é tão preta como a terra deste Mundo, não anseio o que não posso ter, mas anseio todo o quadrado e suspiro que a terra me possa dar, as folhas me possam proteger, a àgua me possa beijar e o ar me acaricie, nas manhãs de todas as estações, na vida de todos os anos e na lembrança de todos que me acompanham.

10.10.11

Pago ódio com amor

Nunca escrevi para ti escrevo agora. Vou sempre a tempo de fazer algo que já devia ter feito. 
O Amor sabes... o Amor é uma coisa incrível, mas destrói, como vês.
Estou aqui meu anjo, estou mesmo. Como as folhas estão nas àrvores e com certezas, com a certeza que te adoro. Mil ventos irão passar por nõs e mil emoções, mil canções, mil abraços... Saberei sempre conhecer o teu, ver os teus olhos no escuro da vida ou na Luz da alegria. Terás sempre o meu braço, a minha mão para te segurar e carinho para te dar. Cresci contigo, sou bem melhor agora, ficarei melhor ainda. 
Lembra-te de todas as vezes que sejas odiado, és amado por mim. Sempre que te fecharem uma porta eu abro-te mil e sempre que te virarem a cara eu abro os meus braços. Posso ser odiada por gostar de ti, mas pago esse ódio com amor. Pago esse ódio com amor. Tolero por ti. Só para te ver sorrir, só para ouvir uma das tuas piadas.

13.9.11

Lá fomos nós

Lá fomos nós. Lá andamos lado a lado, a par de toda a vida que nos separa, a par de cada pó de terra que nos cega, cada capítulo de vida. Lá estamos nós, inertes à nossa sorte, com os pensamentos de mudança que nos alimenta a cada dia que passa, com o sonho nas palmas das mãos. Lá estamos nós com a garantia que amanhã o sol vai queimar mais que hoje e que nos vão nascer asas nas costas, por muita dor que isso custe. Lá estamos nós, com medo de onde já estivemos e a imaginar o que já imaginamos e correr os quiilómetros que já corremos. A esperança da diferença habita os nossos corações.
Cá estamos nós, de mãos dadas às palavras que dissemos e trazemos nos olhos o sentimento que nos une e que nos une ao mundo numa fusão única que só a Natureza pode fazer. Cá estamos nós com a dúvida no coração, a pensar que nunca aguentaríamos desistir do nosso coração e que isso seria  a morte. Cada palmo de terra que nos separa na verdade é o que nos une na nossa diferença mas principalmente na nossa igualdade. Cá estamos nós, a completar-nos a cada mudança de pele a cada mudança de carapaça.
Cá estamos nós a cultivar a terra do Mundo para nos servir. A cultivar o Amor para oferecer e a cultivar a Vida para a podermos viver juntos e felizes.

30.8.11

Sou anormal! E depois?!

Não consigo ser normal. As minhas atitudes não cabem no que é aceitável para a sociedade. Eu sei disso...Sei também, que dão um valor imensamente superior do que realmente merece a essas marcas de comportamento a que chamam normal. Isso é uma castração à mente humana, à diversidade e à capacidade de inovação blá blá blá...
O que vos digo aqui, centenas gritaram, escreveram, tatuaram e mais não sei o quê bem antes de mim, a verdade é que nunca adiantou nada, até porque os normais são mais que as mães (contando com as as mães dos anormais, a minha incluída portanto) e lá sempre dão a volta para as leis da ordem moral, ética e normal é claro - prevaleça.
Já alguma vez se debruçaram no facto da maioria das pessoas gostarem de ver algo diferente? Original? Nem que seja para esses sereszinhos normais criticarem? Se calhar é porque toda a gente se cansa do que vê, da normalidade que vive, na igualdade dos dias, no desperdício dos momentos, no fundo de serem normais...
Porque é que levam essa vida então? Para serem bem vistos? Por quem? Por quem é igual a vós? Por quem lá no fundo dava tudo para ser diferente? Ah...Não...Já sei, para não serem criticados, para os vossos vizinhos, colegas de café, inimigozinhos não vos porem na boca do mundo, porque afinal toda a gente tem medo desse bicho papão - A BOCA DO MUNDO!!!
Eu quero que a boca do mundo se dane, porque essa boca não é a minha e não se rege pelos meus pensamentos, esses que são demasiado grandes para caberem na cabeça da BOCA DO MUNDO, porque ela pensa pequeno, ouve pequeno e vê pequeno e eu sou grande e dona de mim...
Essa grande boca não come ninguém. Vocês é que se comem a vocês próprios! Comem a vossa imaginação. desejos, anseios.
Eu agradeço a quem me diga que não sou normal! Nasci anormal e perante vós venho atestar a minha anormalidade! Sou orgulhosa dela, sou anormal desde o dia em que nasci! 
Vou morrer anormal, senil talvez, mas anormal...
Nunca irei ser vossa cúmplice, NUNCA!