10.1.12

Piano pesado

Sentou-se em frente às letras e só mexeu dois dedos, por vezes bater aquelas teclas era um piano muito pesado de tocar. Fecha os olhos,tentando por a mente a preto quando se lembra de repente da sua covardia em enfrentar o teclado, sentia que a sua vida tinha sido revolvida como a terra dos campos e que os bichos tinham comido todas as flores da Primavera e todos os pássaros tinham perdido as asas.
Precisava de chorar mas não podia, porque não é o esperado dela, não é o esperado...
Passa os dedos no cabelo e acende um cigarro, na vã esperânça que algo lhe venha à cabeça ou que esse algo faça mover os seus dedos...
A perda - escreve ela - não escreveu mais.
Escrever é um atestado de verdade e realidade muito pesado, muitas vezes, para suportar.
Assim como a sua vida também, muita pesada por vezes para suportar.
Não consigo - pensa ela - pousando os dedos trémulos nos joelhos e àgua nos olhos, sentindo molhar-lhe a cara, as lágrimas a entrarem para a sua boca.
O Ser Humano é o ser mais magoado, pensa ela...
Pois eu continuo esssa frase:
O Ser Humano é o mais magoado, porque cria laços, porque ama, porque se supera, porque não vive uma vida sem recalcamento, sem angústia, sem sofrimento. O Ser Humano perde quem ama e ganha outros, revoluciona terras inteiras e esconde-se em armários também, nasce e cresce e morre...
Morre...Morre...Morre...
Como tu morreste...



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